6.11.09

lúcifer veio te buscar

péssimo humor pela manhã
além dos problemas as labaredas do inferno
lúcifer soltando seu bafo sobre os mortais pecadores

- mas o que foi que fiz para merecer isso?

o justo paga pelo pecador
qualquer religião prega isso com argumentos profundos
como o cérebro da próxima capa da playboy

- e as pessoas acreditam

as pessoas acreditam em tudo que esteja de acordo
com o que elas querem acreditar
por isso há gente nesta terra que adora o inferno

- sou carioca pô.

vem andar de ônibus vem
garota de ipanema menino do rio
vem trabalhar nas ruas do Centro
entregar documento limpar calçada
dormir com ventilador


bonnie

26.10.09

naquele tempo

naquele tempo não era mais fácil. apenas parecia que seria possível e lógico, e que a resistência do chuveiro não nos tiraria do sério nem a fechadura travada bem na hora de sair de casa - e o chaveiro cobrar cinquenta reais porque sabe que dependemos dele como de um médico - nem o vaso sanitário começar a vazar (o que gramaticalmente faz algum sentido) e transformar o banheiro num lamaçal.

não.

naquele tempo os problemas se resumiam à preocupação com aquela sirigaita peituda que se abre em sorrisos e aquele pilantra amigo de infância que elogia os olhos e em quase todas as outras criaturas minimamente humanas, porque, afinal, todos vão ter algum interesse pelo seu amor, que é o mais lindo do mundo, óbvio.

mas isso não quer dizer que estas questões tenham perdido importância diante daquelas.

não.

enquanto for seu amor.


clarissa

22.10.09

Da série "Pausa nas pretensões literárias"

Absolutamente elucidativo e, portanto, essencial e inadiável.

MST X CUTRALE
O que é mais chocante?

Por Hamilton Octavio de Souza

Na última semana, primeiro a TV Globo, depois os demais veículos da grande imprensa neoliberal, exploraram ao máximo – com sensacionalismo e forte dose de criminalização – a imagem de trabalhadores sem terra arrancando pés de laranja numa área grilada da empresa multinacional Cutrale, no município de Iaras, interior de São Paulo. Evidentemente o assunto teve grande repercussão pública e foi alvo de manifestações precipitadas e raivosas de setores da direita – muito mais por afirmação ideológica do que pela relevância dos fatos.

Pouco se falou que a terra invadida pela empresa Cutrale pertence à União, é terra pública, e que deveria ter sido usada para assentamento da reforma agrária há muitos anos, conforme projeto do INCRA, mas que foi grilada e vendida para particulares de forma ilegal. Tanto é que a área é ainda hoje objeto de inúmeras ações e pendências judiciais. O crime original – grilagem – foi ignorado pela mídia.

Portanto, a ocupação feita pelas famílias e trabalhadores rurais sem terra foi legítima e estratégica, na medida em que reafirmou a defesa do patrimônio da União e chamou a atenção das autoridades para a destinação inicial da área, que é o projeto de assentamento de famílias empenhadas em viver, trabalhar e produzir no campo.
Chamou a atenção da sociedade também para a necessária e urgente plantação de alimentos, já que o Brasil tem sido obrigado a importar arroz, feijão e trigo – enquanto o agronegócio só se preocupa com produtos de exportação.

Lá mesmo em Iaras, mais de 400 famílias estão acampadas e aguardam, há anos, uma decisão da Justiça sobre aquelas terras. Se tivessem sido regularizadas pela reforma agrária, com certeza estariam rendendo alimentos mais baratos para o povo brasileiro.
O que é mais chocante: pés de laranja arrancados em protesto ou mais de 400 famílias –mulheres, velhos e crianças – vivendo em acampamentos precários?

Na pressa para criminalizar os trabalhadores sem terra pela ocupação em Iaras, a grande imprensa corporativa não fez qualquer associação com a destruição dos laranjais ocorrida nos últimos dois anos, pelos próprios produtores, especialmente no Estado de São Paulo, porque os preços impostos pelas indústrias do suco eram insuficientes para a manutenção dessas plantações. A área total de plantio da laranja foi reduzida em milhares de hectares por obra dos próprios produtores, em especial dos pequenos produtores, que preferiram migrar para outras lavouras ao invés de trabalhar de graça para o oligopólio industrial do suco de laranja.

O que é mais chocante: pés de laranja arrancados pelo protesto dos sem terra ou laranjais inteiros destruídos porque o cartel do suco inviabilizou a atividade dos produtores, desempregou os trabalhadores e provocou a elevação no preço da fruta vendida no mercado consumidor brasileiro?

Antes mesmo de investigar e apurar corretamente o que aconteceu em Iaras, antes mesmo de ouvir todos os lados envolvidos no caso da área grilada da Cutrale, como mandam as regras básicas do bom jornalismo, a imprensa corporativa deu grande destaque ao vídeo e à versão da policia estadual, a qual, todo mundo sabe, tem posição partidária, atua sempre contra os movimentos sociais (urbanos e rurais) e é conhecida por difundir versões mentirosas e distorcidas sobre os fatos, como nos episódios da Escola Base, nos assassinatos de maio de 2006 no Estado de São Paulo e, mais recentemente, no assassinato de uma jovem na favela de Heliópolis, na capital paulista.

Agora no caso de Iaras, mais uma vez a grande imprensa neoliberal conservadora aceitou sem vacilar a versão de “vandalismo” dada pela polícia e não se preocupou em checar, in loco, com as famílias de sem terra e com os trabalhadores rurais da Cutrale, a verdadeira história sobre o ocorrido. Entre fazer jornalismo e comprometer-se com a verdade, a grande imprensa corporativa preferiu ficar com a versão mais adequada aos seus interesses ideológicos. Mais uma vez essa mídia deu guarida e projeção para as posições mais atrasadas e reacionárias da sociedade brasileira, que são reconhecidamente contra a reforma agrária e contra as lutas dos movimentos sociais do campo e da cidade.

O que é mais chocante: pés de laranja arrancados pelo protesto dos sem terra, em área pública grilada por empresa multinacional ou a existência de uma imprensa e de uma polícia que mentem para defender os interesses das elites econômicas e políticas, as mesmas que impedem o Brasil de ser um país mais justo e mais igualitário, que está em 75º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU?
Você decide.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista, editor da Caros Amigos e professor da PUC-SP

Tirado daqui.

bonnie

14.10.09

retrocesso

o cavaleiro de espadas emerge como arcano conselheiro
nesse momento de minha vida em que o escarmento me reprime,
em que o pretérito me assalta discricionariamente.

diz uma dúzia e meia de palavras esquisitas,
um português guimarães rosa de incentivos ao presente,
a um futuro de possibilidades ao menos agradáveis.

diz: olvide.
depois de verificar o dicionário, respondo: sei que
não posso. não posso pensar na cena que visualizei e que é real
.

mas viajo no tempo quando a memória se descontrola.
misturo os sujeitos, presa que fico numa circunstância
tão efêmera, pela duração, quanto eterna pelo estrago.

e paraliso aguardando a repetição.


mrs. mojo rising

em negrito: Clarice Lispector

28.9.09

das várias mortes parte I

as mãos estavam sobre sua coxa, mas não sentiu. o álcool a projetou para fatos passados. teria sido diferente caso a trajetória da bala fosse a desejada? esse agnosticismo... não saber é o mais desconfortável dos sentimentos. às vezes imaginava-se já morta. deve ter morrido adolescente, depois da noite que passou cheirando pela primeira vez. deve ter tido uma overdose. como castigo, continuar a vida. aquele era seu inferno. tudo igualzinho para confundir. punição de que não se tem consciência é muito pior porque não faz sentido.

uma das mãos já nos seios, a saia nos joelhos, a outra dentro da calcinha. coitado, nem sabe onde fica o clitóris. olhou para o meio de suas pernas, era dos grandes. quase sempre assim: quando o sujeito se acha bem servido, não se importa em diversificar a atuação. pena, porque, embora bonito de se ver, não garante a qualidade.

gozou rápido. como continuasse duro, puxou-a pelos cabelos até embaixo, onde ela se manteve mecanicamente no movimento que conhecia tão bem. engoliu o novo líquido não por obrigação; gostava. afastou a boca que procurava seus seios, não saberia dizer nem o nome do dono daquela boca. colocou calcinha, blusa, saia, sapatos, óculos, pegou a bolsa. o dono da boca fazendo um muxoxo romântico, que ridículo, ele também não sabe seu nome.


mrs. mojo rising

17.9.09

primeiro erro

deveria ter dito não naquela tarde.
desistido.
ido embora.
nem gostava de você ainda.
nem gostava de mim com você ainda.
nem gostava dessa pele branca que não pega cor
mesmo com quilos de cenoura.
você é tão estranho que nem vermelho fica no sol.
e você come de boca aberta.

não foi insistência.
deixei para lá.
não levei em consideração o que você dizia.
ignorei-o impensadamente, sem maldade.
naquela tarde ainda não me importava toda a confusão.

agora o retorno é inviável ou suicídio.


clarissa

Coitado do Che

Barack Obama agora é tachado de comunista pela classe média estadunidense por querer ampliar o serviço público de saúde para todos os cidadãos. Em passeata ocorrida contra a intenção do presidente, tinha foto dele com a famosa boina do Che Guevara. Em outra faixa, lia-se "não distribua a riqueza das minhas barbies".

Gente egoísta, cruel. E burra, burra demais.

bonnie

3.9.09

do ir sem saber

é o vento ou pensa demais?
não é ruim, mas já foi melhor.
desculpa-se por antecipação.
desiste sem tentar.
desiste?
nada.
o terror aumenta a velocidade.
desiste de acreditar, apenas.
entende?
vai sem acreditar.
embora com raiva dessa alegria,
que raiva.
não é possível ser alegre assim
sem estar, de alguma forma, cúmplice.


bonnie